sábado, julho 03, 2004

Atualizada rápida, pois estou de saída. Aliás, nem ia atualizar hoje, mas eu achei esse texto muito interessante, e por isso resolvi compartilhar com vocês.. Custei a achar um texto que refletisse tão bem o que eu penso a respeito da popularização de certas bandas que até então eram "underground" - digo entre aspas, pois as mesmas fazem muito sucesso na Europa há anos..
Tá aí.. gostaria da opinião de vocês :)
See Ya!!


Piolhices & Afins
Por Rodrigo "Piolho" Monteiro
21/6/2004


Nightwish

Segundo o dicionário Aurélio Buarque de Holanda, a palavra xenofobia tem o seguinte significado: "aversão a pessoas ou coisas estrangeiras; xenofobismo". O termo é junção do prefixo "xen" - do grego, que significa estranho, estrangeiro - com o termo "fobia" - também do grego, phob < phobéomai, "temer" + ia, que tem duas definições: 1) Designação comum às diversas espécies de medo mórbido; 2) Horror instintivo a alguma coisa, aversão irreprimível.

É a idéia por trás desse vocábulo, dentre outros fatores, que motiva alguns governos a criarem leis limitando o número de imigrantes dentro de suas fronteiras, bem como garante a continuidade e o vigor de certas facções ? especialmente européias ? dos skinheads.

No entanto, a xenofobia não tem apenas esse viés político, podendo se aplicar também ao entretenimento. Exemplo disso é o que acontece entre os "metaleiros" fãs dos finlandeses do Nightwish. Desde que o Evanescence apareceu como um arrasa-quarteirões, as gravadoras, especialmente as norte-americanas, correram atrás de similares dentro de suas fronteiras. Como não encontraram nada, decidiram promover europeus que se encaixassem no biótipo "banda de heavy metal com vocalista lírica". E é aí que entrou o Nightwish.

A banda é a maior representante do gênero, uma vez que é uma das poucas, senão a única, a utilizar uma soprano para garantir o dito heavy metal melódico. Outras com a mesma característica geralmente são adeptas de estilos musicais mais extremos ou atmosféricos, como o doom ou o gothic metal.

Seja como for, graças ao furacão Evanescence, a Universal, que, há cerca de dois anos, adquiriu a Spinefarm Records, gravadora do Nightwish, entrou de sola no mercado americano, para a aproveitar a onda antes que ela desapareça. E, obviamente, como tudo que acontece na terra do Tio Sam reverbera por aqui, a banda também tem sua cota de superexposição no Brasil. Seu clipe mais recente, "Nemo", até estreou na MTV, com direito à entrevista com a vocalista Tarja Turunen e tudo mais. Logo, o Nightwish passou a tocar em rádios não-especializadas em rock ou heavy metal.

E foi aí que a fúria dos fãs mais radicais aflorou.

É interessante ver como se comportam alguns "metaleiros" (aliás, termo odiado por eles, que preferem "headbangers", uma vez que a alcunha acima teria sido criada durante o primeiro Rock In Rio pela Rede Globo). O heavy metal é um gênero tipicamente underground. Por esta razão, seus fãs sentem arrepios toda vez que alguma banda ? mesmo que por curto período ? ultrapassa as fronteiras desse mundinho. Nessas horas, salta aos olhos o quanto esse pessoal pode ser preconceituoso e xenófobo.

Desde que o Nightwish arrastou-se para fora do underground, alguns meses atrás, o que mais tem se debatido nas listas de discussão e fóruns da Internet dedicados à banda são as conseqüências nefastas dessa "popularização". No entanto, ninguém parece preocupado com problemas reais, como a possibilidade do grupo perder a intimidade com os fãs ? e isso se estende aos canais de imprensa que, como o Omelete, vão tentar credenciais para cobrir sua vinda ao Brasil em dezembro ? ou um desagradável aumento no preço dos ingressos. Que nada. Essa turma não quer ver suas bandas fora do underground. Para eles, só quem tomou conhecimento em publicações e sites especializados merece a honra de ouví-las. Que se fechem as fronteiras aos que gostaram dos clipes na MTV!!

De repente, os headbangers acreditaram-se ungidos ao pedestal de oráculos capazes de reconhecer quem tem ou não o direito de gostar de heavy metal. É mais ou menos assim: "Ah, você aprecia Linkin Park (ou Limp Bizkit, Korn, Evanescence, etc...)? Então, não merece ouvir de Nightwish (ou de Iron Maiden, Blind Guardian, Helloween, etc...)".

Um bocado de gente anda fula da vida, porque viu a vizinha patricinha usando camiseta do grupo. Outros estrilam, porque foram indagados se conheciam o Nightwish, "essa banda nova que imita o Evanescence" . Pior são aqueles que temem a "odiosa" presença de "playboizinhos" nos shows da próxima turnê.

Comportamentos irracionais como esses não são exclusividade de certos fãs de heavy metal. Na verdade, todo entretenimento restrito a um público muito pequeno cultiva o ranço da xenofobia entre seus apreciadores. Quantas vezes não se ouve dizer que as sinfonias de Beethoven, os livros de Tolkein e os gibis de Alan Moore não são para qualquer um? Concordo que é preciso certa bagagem para que sejam apreciados todos os matizes da HQ Watchmen ou da opera Turandot, mas como fomentar um paladar mais apurado se o acesso às obras não for universal?

No caso específico do Nightwish, os xiitas pouco se importam se os integrantes da banda gostam da maior exposição a que estão submetidos. Para eles, não interessa se agora os caras podem viver apenas de sua música diferente de muitos outros, com anos de estrada, ainda obrigados a conciliar atividade musical com um "emprego de verdade". Parecem nem se dar conta de que o novo álbum, Once, é ainda mais pesado do que o anterior, o que torna menos provável uma guinada pop a la Metallica.

Se a banda tem qualidade, por que não sair do underground e alçar vôos mais altos? Se mantiver a mesma filosofia de trabalho e não se vender para agradar gregos e troianos, ignorando os fãs que a acompanham desde o começo, manda ver. Se ceder ao lado negro da Força e mudar seu estilo só pra alcançar desavergonhadamente a fama e a fortuna... Bom, aí é um problema entre os integrantes do grupo e suas consciências. Nós, os fãs, não temos nada a ver com isso.


fonte: www.omelete.com.br

PS: visitarei vocês quando voltar :)

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